Bruno Zago
22 março 2017 - 14:31 | Atualizado em 13 agosto 2026 - 16:35
Minha empresa está envolvida com muitas tecnologias emergentes e, às vezes, esqueço quão desconhecidos são os smart contracts e o próprio blockchain. Ao dizê-lo, minha intenção não é “aparecer”, mas apontar a necessidade de atualização perpétua com respeito a novas tecnologias não só em conferências chatas de ELC (educação legal continuada) cujos temas são “mitigando o risco de vazamento de e-mails” ou “questões éticas no aspecto legal de compra, venda e transferências”.Se isso é interessante para você, fico feliz por você.
Minha colegas riem de mim pelo fato de que, com acesso maior a empresas como LegalZoom e a projetos como ROSS, os advogados logo ficarão sem emprego: (1) isso pode não ser tão ruim e (2) creio que a atividade jurídica simplesmente mudará de perfil, da prática atual, ultrapassada, para algo novo e diferente. Uma parte importante desse novo paradigma será a elaboração de contratos via programação, e não linguagem escrita (não que os advogados já tenham elaborado contratos legíveis para leigos, é claro).
A advocacia tem uma linda história de intenções nobres, todavia, de execução plebeia. O direito comum foi desenvolvido como uma forma de proteger a propriedade enquanto promovia os conceitos essenciais de justiça. Hoje, os escritórios de advocacia acumulam centenas de milhares de dólares em horas faturáveis, usando-as como ameaça contra adversários futuros, impedindo-os de buscar justiça. Em algum momento, a lógica do sistema judiciário se inverteu, os incentivos foram pervertidos, de forma que só um indivíduo lesado em totalidade buscará a justiça.
Por causa dessa mudança, os clientes demandam novas alternativas ao antigo sistema, e os smart contracts ajudarão a reparar as rachaduras do edifício judiciário.
Recentemente conduzi uma pesquisa informal com colegas das mais diversas áreas do Direito, e nenhum deles tinha ouvido falar de smart contracts, e só um mostrou familiaridade com o blockchain.
As firmas que se especializarem agora poderão influenciar no desenvolvimento e trabalhar na aceitação dele na comunidade jurídica. Caso não haja interesse dos pequenos players, o controle cairá nas mãos dos grandes escritórios, os quais controlam o cenário e propõem as regulamentações, de modo que esses limitarão o acesso daqueles a clientes. Atualize-se!
Como os smart contracts impactarão ou mudarão o sistema atual? As mudanças ocorrerão em duas frentes: 1) mudanças na lei e 2) mudança na prática da advocacia.
Outra questão significativa com respeito a esses contratos é como sistemas legais diferentes os adotarão. Em países que seguem o direito comum, smart contracts são aceitos e desregulamentados até o Congresso (ou outra agência governamental) decidir que precisa ser regulamentado, ou até que surja um caso via judiciário.
Contudo, em países que seguem o direito civil, a adoção/aprovação governamental precisa acontecer logo no início de sua implantação. Pessoas que começarem a usar smart contracts nessas jurisdições correm o risco de regulamentações desfavoráveis que poderiam, retroativamente, afetar seus contratos.
O blockchain foi desenvolvido para evitar todos os entraves burocráticos, funcionando independentemente da autoridade central. Até o fim do Estado (que, possivelmente, não será em breve), precisamos descobrir como essa tecnologia descentralizadora funcionará junto com o sistema atual, como crescerá e reduzirá nossa dependência dele.
Para mim, essa mudança não ocorrerá sob a forma de revolução, mas sim por meio de ajustes na margem em áreas mais receptíveis, como citei anteriormente. Com o desenvolvimento da tecnologia, ela se tornará cada dia mais confiável, mais fácil de codificar e adotada pela população em geral, não só quando buscamos mudanças de grande porte. É um longo processo, mas os benefícios possíveis e a eliminação potencial de todos os custos de transação a tornam uma empreitada válida.
Artigo original: “Understanding the Future of the Law on the Blockchain”
Autoria: Hoss Layne – Hoss é o conselheiro de assuntos jurídicos da Exosphere Academy. Ele é responsável pelos cursos imersivos em AI, Blockchain, Biohacking & mais. Para mais informações, acesse: http://exosphe.re/
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